28/09/07
Brasileiros e Americanos discutem técnicas de sustentabilidade
Durante o I Congresso Internacional para Escolas e Instituições de Ensino Superior – Fundraising: Captação de Recursos, que aconteceu em São Paulo, nos últimos dias 21 e 22, promovido pelas Faculdades Integradas Rio Branco, americanos e brasileiros discutiram técnicas de captação de recursos e sustentabilidade de instituições de ensino por meio de apresentação de cases de sucesso ao redor do mundo e técnicas bem-sucedidas. Representantes de Harvard e da maior instituição de profissionais captadores de recursos do mundo, a Association of Fundraising Professionals (AFP), uniram-se aos líderes de escolas brasileiras e ensinaram um pouco dessa prática, ainda pouco conhecida pela maioria da população brasileira
O primeiro congresso no Brasil, que discutiu a sustentabilidade das instituições de ensino, reuniu cerca de 300 pessoas provenientes de todo o Brasil. Em um momento de consolidação da educação no País, os participantes puderam conhecer experiências de especialistas no assunto e aprender um pouco como levantar recursos para suas instituições. Tarefa que exige conhecimento, segundo os preletores, mas que seguramente trazem excelentes resultados.
No primeiro dia, após a abertura oficial — que contou com a presença do prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, Rodrigo Lamego, assessor parlamentar do Ministério da Educação, representando o Ministro da Educação, e Pedro Kassab, presiden e do Conselho Estadual de Educação, representando o governador do Estado de São Paulo —, James Honan, co-presidente do Institute for Educational Management de Harvard, falou sobre seu trabalho, que se resume em ensinar gestão de organizações sem fins lucrativos. Segundo ele, distanciando-se da questão de qualidade e captação de recursos na educação, é importante pensar na estratégia maior. “Grande parte do trabalho concentra-se não apenas naqueles de quem queremos captar recursos (os doadores), mas em todos os líderes (conselheiros e diretores das instituições de ensino), ainda que muitos nem tenham experiência na captação e acreditem que isso não faz parte de seu papel porque são líderes educacionais. Porém, eles têm responsabilidade sim. Quando você quer pedir fundos, uma coisa para se pensar é se existe um plano ou estratégia para isso. Quando pensamos em escala mais ampla de captação de recursos, precisamos pensar em estratégias, em planos, e ver o que realmente queremos para nossa instituição”, afirmou Honan.
Cynthia Sanborn, chefe do Departamento Acadêmico de Ciências Sociais da Universidade do Pacífico, abordou a questão das doações privadas na América Latina: Tradições Históricas e Tendências Recentes. As últimas duas décadas representam profunda transformação da educação superior latino-americana, pois houve proliferação das universidades, aumento da concorrência, expansão de matrículas e surgimento de novos sistemas de reconhecimento, além de redução de verbas públicas destinadas ao Ensino Superior, gerando maior dependência do mercado. Em contraponto, abordou os problemas persistentes, e são eles o acesso, a eqüidade e a qualidade. “A religião e caridade cristã têm desempenhado papel importante para o bem-estar social e, além disso, o Estado desempenha o papel histórico de exercer forte controle no sistema educacional e de saúde, fazendo com que o setor público ainda exerça o principal papel nesses setores em países da América Latina”, salientou. Ainda, de acordo com Cynthia, a educação é a principal prioridade para fundações privadas e doadores corporativos, pois a consideram primordial para o desenvolvimento e igualdade, além de representar baixo risco político.
No segundo dia, Timothy Burcham, Vice-Presidente de Estudos Avançados do KCTCS (Kentucky Community and Technical College System) e presidente do conselho da AFP, falou sobre doações que as pessoas não fazem baseadas em decisões financeiras, mas realmente se importam com a causa que estão abraçando. Esse processo de captação de recursos não começa apenas com um “estalar de dedos” em um dia e os doadores aparecem. É necessário desenvolver um programa e não focar em resultados imediatos. O relacionamento entre o doador e a pessoa que faz o pedido é essencial para fazer a diferença no resultado. Os captadores de recursos passam a maior parte do tempo se preparando para pedir aos doadores. “Nós devemos celebrar o que fazemos, porque ao festejar o sucesso, mais ele vem até nós, afinal, pessoas bem-sucedidas não se associam a organizações que não tenham esse perfil. O pedido pode ser informal ou formal, isso depende de quem estamos focando. Uma regra básica é: depois do pedido efetuado, espere, o resultado virá”, salientou. Burcham também enfatizou que os seres-humanos tendem a repetir experiências satisfatórias e, a partir disso, é necessário fazer do fundraising um processo prazeroso. Outro fator que deve ser considerado é que o doador espera ser abordado pela exata quantia de dinheiro, por isso, o captador deve conhecê-lo muito bem e saber o que realmente importa para ele porque a doação é feita mediante a necessidade de alcance de algo particular, ou seja, saber o que realmente é motivo de interesse para o doador ajudará o captador atingir seu objetivo.
Histórias de sucesso na captação de recursos no Brasil também foram apresentadas. Francisco di Bella Jr, diretor de desenvolvimento da Escola Graduada de São Paulo (Graded School) apresentou a instituição que dirige e falou do processo na escola, que realiza campanhas anuais e mostrou as campanhas já realizadas, enfatizando as dificuldades e o sucesso atingido. Christoph Bernasiuk, Secretário do Patrimônio Histórico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apresentou o projeto de resgate do patrimônio histórico e cultural da UFRGS, que visa a recuperação do conjunto de 12 prédios históricos, aprovado pelo Ministério da Cultura. Segundo ele, os fatores chave para o sucesso envolvem conhecimento e aperfeiçoamento técnico da equipe; credibilidade da organização; capacidade de demonstrar resultados; capacidade de gerar imagem para quem contribui; rede de relacionamento; desenvolvimento de fornecedores e conhecimento dos trâmites legais.
Ellen Sullivan, diretora do Escritório de Relações entre Corporações e Fundações da Universidade de Harvard em Boston, falou do sucesso da instituição em criar um espírito de comunidade e a cultura de doação. De acordo com ela, é necessário desenvolver uma visão de que é possível o levantamento de fundos, que ajuda a prover estabilidade a longo prazo; alavancar outras fontes de receita; encorajar inovação e flexibilidade e melhorar planejamento para o futuro. No caso de Harvard, as doações são feitas, na maioria dos casos, por lealdade à instituição. Os doadores recebem relatório anual detalhado de como o dinheiro foi investido e quem foi beneficiado. Harvard abre seus livros e disponibiliza os dados para as fundações e pessoas que contribuem. “Aqui no Brasil, parece cultural doações para instituições de saúde, e não para educacionais, as pessoas não têm certeza de como o montante será gasto pela universidade, que geralmente não tem captadores e nem infra-estrutura para isso. Além disso, aqui, ninguém pede, o contrário do que acontece no mundo todo, inclusive nos Estados Unidos”, disse. Uma boa campanha de fundraising deve considerar os pontos fortes e de alavancagem da instituição; o que ela faz de bem; o que pretende fazer no futuro; quantidade necessária de fundos para atingir a missão e por que ajudar determinada instituição.
A última discussão contou com Cássio Mesquita Barros, Professor Titular na Universidade de São Paulo (USP) e Professor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), e Andrew Watt, vice-presidente internacional de desenvolvimento da AFP, que abordaram visão geral das estruturas regulatórias e incentivos fiscais para doações no Reino Unido e Estados Unidos. Watt questionou a platéia sobre a importância de investir na captação de recurso e o valor doado para as instituições. A criação de um ambiente regulatório transparente promove confiança do público e prestação de contas precisas aumentam a comunicação e, somado a isso, o fácil acesso aos recursos encoraja o desenvolvimento de setor sem fins lucrativos profissional e eficaz.
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